terça-feira, outubro 03, 2006

Caça

Sangue de caçadores, imagino. Porque quando a barata se aventurou em seu quarto notou de canto de olho.
As havaianas já descalçadas debaixo da cama foram retomadas pela mão ainda enrrugada do banho.
Ficou à espreita e deu o bote. Bicho esperto que era aquele inseto, escapou rapidinho pro canto atrás do guarda-roupa.
Como o sangue que corria trazia consigo talvez um remoto instinto dos ascendentes longinquos, fez tocaia, movendo alguns móveis, abrindo clareiras onde a arma pudesse ser usada com exatidão na hora do abate. Depois foi pra porta da caverna, feita de duas paredes e um guarda-roupa. Lembrou de como a professora, muito tempo atrás, mostrou no livro onde homens da caverna empurravam o mamute para o precipício. Jogou um chinelo pra assustar o incômodo inseto e esperou do outro lado.
Por um segundo, ou menos que isso, quando para sair de seu esconderijo, o inseto e seu algoz se entreolharam no que pareceu serem longos minutos. O pequeno ser disparou, correndo pela sua (breve) vida. Foi fulminada pela segunda investida da chinela.
- Bicho burro - pensou, mastigando um sentimento de dever cumprido no fundo da alma - Te peguei.

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