terça-feira, outubro 31, 2006

Talvez

Então nos falamos cada vez menos. Um dia paramos por completo. Dia ou outro era um oi ou bom dia.
Depois nos encontraríamos na rua. Sem assunto puxaríamos um papo sem importância. Simpático, eu sugeriria algum assunto. Ou talvez não. Talvez com pressa ou de mau humor. Talvez não quisesse.
- Me passa seu email, acho que perdi.
- Claro, tá aqui meu cartão.
- Aproveita e anota o meu.
- Tem papel?
- Tenho, e tá aqui a caneta.
- Legal, vamos combinar algo.
- Vamos sim.
- E tal coisa assim.
- Qual? Ah, larguei no meio.
- Legal.
- Beijo, a gente se vê.
- Isso. Mas não pode furar!
- Pode deixar.
Nos viraríamos e continuaríamos nosso caminho. Pode ser que um de nós se virasse para trás uma última vez. Talvez não.

domingo, outubro 22, 2006

Video conceito

Esse video é uma colagem de alguns pedaços de vídeos que fiz durante a caminhada do grupo de "Poéticas Visuais" pelo centro de Campinas.
Não sou profissional, apenas curioso. E, cá entre nós, não é vídeo, são fotografias com um longo tempo de exposição.
Atualizando: nos vídeos de Montevidéo, mais umas questões do que é foto e o que é vídeo. Montevídeos, como eu e o Vagner (companheiro de viagens teóricas) brincamos. Mas talvez caiba "fotoação" ou algum neologismo.

Dois hotéis no tempo

Agora com as pálpebras cerradas, guardavam a recordação de dias melhores. Nem sonhos mais tinham.

Acordeão

Fosse pra espantar os fantasmas ou chamar fregueses, o dono do bar tocava o instrumento em uma dimensão própria.
Sorri e com um abano de cabeça pedi licença. Com outro abano de cabeça ele respondeu sim. Fotografei, sorri e fiz menção de bater palmas (não bati por respeito à música: não se deve interromper). Ele sorriu de volta e fez menção em agradecer (também não o fez em respeito ao público: não se deve interromper). E ficou lá, soltando "Moreninha linda do meu bem querer" para o bar vazio.

20

A definição de lembrancinhas, miudezas e quinquilharias levaria horas, pode crer.

Tempo

(pause) Não consigo não pensar em um túnel do tempo levando apenas os prédios e o senhor em destaque. (solta pause)

Proteção

Em uma savana africana, um poster das ruas de Campinas.

Caramelo, Chocolate, Biscoito

Top of Mind no lixão mais próximo.

Supletivo

Supletivo.

Corpo

Entre bêbado e morto são algumas horas de espera.

Sete


É uma colagem de duas fotos.
-Ah, vá! Você nem percebeu, falaverdade.

Ponto de fuga

Tudo andando. Vamos, vamos (buzina, motor acelerado, olhar feio: "Tá atraplalhando o trânsito"). Existe na cidade (nas cidades) toda uma rede de proteção ao pedestre, para evitar que esses bichos motorizados nos mordam. Em um terminal de ônibus me sinto, às vezes, na jaula dos leões. Abrem-se as portas basculantes e vamos nós fazer o velho truque de pôr a cabeça na boca deles.
E se morde?

Flores

Mesmo entre o concreto da cidade, desabrocham.

Abertura pro céu

Protegidos ou cerceados?

Espelho

São duas fotos, mas a idéia era mostrar essas repetições. a idéia era mostrar essas repetições.

Vigilante

Sob o olhar atento do status quo, todo um enxame de subversivos e piratas.

Ervas


Aroma. Essa é a palavra.

Ao meio

O Brasil é uma colagem. Conceito amplo, diga-se de passagem. (rima, rima, rimador...)

Decifra-me

Entretido em algum tipo de jogo (arrisco o palpite: Sudoku, essa "mania nacional") o cidadão nem notou as minhas várias tentativas de fazer a foto.
Foco, transeuntes, composição, detalhes técnicos, tudo pacientemente resolvido sem que o homem sequer me notasse.
Concentração! É o que os orientais ensinam.

Respiro

Entre os túneis que ligam o calçadão ao Terminal, respira-se.

Condomínio Fechado

Um detalhe nos túneis que levam ao Terminal de Ônibus de Campinas: têm uma infra-estrutura proveniente da superestrutura cidade. Fios de força "gateados" iluminam as sombras que se formam certas horas do dia.
O público que é tão público que pode ser individualizado. É meu, é dele, é seu. Mas quem fez o gato leva vantagem.

Túneis

Do calçadão de Campinas ao Terminal de ônibus é possível cortar caminho por uma série de túneis, esses povoados por camelôs de todos os tipos e níveis de necessidades de consumo.

Pra onde vai o fluxo

Esses sim. Manequins menos esnobes, o reflexo do lado de cá em forma viva. Aposto que as figuras na foto de baixo invejam todo esse nosso movimento, ou até esse visual.

Desejo e reflexo


A foto dos manequins deveria dialogar com a foto de cima. Ao contrário, dialogou com meu reflexo e de meus companheiros de movimento.

Leia atentamente

Humor negro, eu sei.
Péssima atitude, foto descontextualizada. Também sei.
Mas o dedo não resistiu.
Mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa.

Vide Bula

Lendo as instruções, convenhamos: pixação não é cartaz.

Catacumbas

Tiraram algumas tábuas debaixo de um tapete velho, atrás do altar. Algo secretíssimo.
Embaixo da igreja, a tumba de alguns bispos. Abafado e apertado o lugar se enche de turistas (os mesmos da linha de empedimento contra a beata). Tem quatro bispos em gavetas, e lugar pra mais meia dúzia.
A cara de frustração é geral. Igreja grande, merecia catacumbas que fizessem juz ao nome.
Podiam ter escavado um pouco mais. Custava nada. Nem que enterrassem alguns padres de hierarquia menor. Vai ver o plano de carreira não incluía.

Nossa Senhora do Canto Direito


Sou ruim pra santo. Admito. Nas várias versões da Nossa Senhora (lógica também aplicável para bonequinhos do Spawn), fiquei na dúvida dessa.
Minha mãe que não me veja titubeando.
-Mas manto azul, meu filho, é claro que é a Nossa Senhora...(complete aqui).

Oferendas

-Cada qual, vela de tal cor.
Faz favor não confundir. No céu lá é uma burocracia rapaz!

Alá!

Escada para o céu

Não é difícil de se espantar com uma escada no meio da nave principal da igreja.
Também não é difícil achar estranho toda a dinâmica dentro da Igreja Matriz. Assim como na Sé, os turistas marcham em bandos enquanto os fiéis se concentram para fazer a oração.
Uma beata, com seus afazeres de beata, dribla dois ou três turistas (nós entre eles) e marca seu ponto, arrumando a toalhinha no palanque. Quase soltei um animado "Gooooooool!" mas achei melhor não. A senhorinha não era das que parecia levar uma brincadeira na esportiva (com o perdão do trocadilho).

Vigiar e proteger


Estávamos, nós o grupo de "Poéticas Visuais", em uma rodinha, quando a viatura se deslocou para perto da gente. Afinal podia ser baderna, arruaça. Ou então julguei mal e éramos visados por uma orda de mal elementos invisíveis a nossos olhos de artistas.
Uma coisa ou outra, estávamos bem acompanhados: deus e a polícia. Ambos de alguma forma tentam, ostencivamente te salvar de algo que pode vir a acontecer, mas que não é certeza.
Começamos a caminhada pelo centro de Campinas, onde iríamos dar uma de astronautas antropólogos e tentar enxergar a estrutura invisível aos transeuntes e as relações entre esses últimos e a cidade.
-Para o alto e avante! - e saimos voando.

terça-feira, outubro 03, 2006

Caça

Sangue de caçadores, imagino. Porque quando a barata se aventurou em seu quarto notou de canto de olho.
As havaianas já descalçadas debaixo da cama foram retomadas pela mão ainda enrrugada do banho.
Ficou à espreita e deu o bote. Bicho esperto que era aquele inseto, escapou rapidinho pro canto atrás do guarda-roupa.
Como o sangue que corria trazia consigo talvez um remoto instinto dos ascendentes longinquos, fez tocaia, movendo alguns móveis, abrindo clareiras onde a arma pudesse ser usada com exatidão na hora do abate. Depois foi pra porta da caverna, feita de duas paredes e um guarda-roupa. Lembrou de como a professora, muito tempo atrás, mostrou no livro onde homens da caverna empurravam o mamute para o precipício. Jogou um chinelo pra assustar o incômodo inseto e esperou do outro lado.
Por um segundo, ou menos que isso, quando para sair de seu esconderijo, o inseto e seu algoz se entreolharam no que pareceu serem longos minutos. O pequeno ser disparou, correndo pela sua (breve) vida. Foi fulminada pela segunda investida da chinela.
- Bicho burro - pensou, mastigando um sentimento de dever cumprido no fundo da alma - Te peguei.