quinta-feira, agosto 31, 2006

Fui eu!

- Me veja uma pinga! E rápido!
Preciso de uma pinga pra me esquecer.
Sim, porque se ninguém mais tem coragem de admitir, eu ao contrário digo pra quem quiser ouvir nesse boteco nojento: Fui eu quem matou a poesia!
Ela estava lá todos os dias, me encarando quando eu acordava. Passando por entre as frestas da janela e fazendo figuras no teto. Depois, eu saia de casa e ela estava no rangido do portão, nos transeuntes que passavam por mim, no clima do dia, na cara das pessoas na fila do ônibus. E assim ia, durante todo o dia.
Primeiro tentei afogar ela no álcool. Depois botei fogo nas contas atrasadas e fiz uma pira fúnebre em sua homenagem. Homenagem de morte. Ai enterrei as cinzas dela no jardinzinho em frente de casa, onde um quadrado de terra de um por um metro insistia em querer dar um mato rasteiro numa terra seca e cheia de formiga.
Fiquei uns dias feliz, sem poesia pra ver. Os dias sem cor, as pessoas sem alma, e umas caras que não diziam nada.
Hoje de manhã, quando acordei não vi nada no teto e achei que ia ser mais um dia comum. Mas quando já ia fechar o portãozinho de ferro com o cadeadinho vi, no meio daquele mato bruto, uma florzinha amarelinha. Aí tudo desandou.
Já no ponto de ônibus uma menina de vestido de chita sorriu diferente e brincou com os dedos, fazendo sombra na calçada de pedra portuguesa. Aliás, na calçada achei um desenho que não tinha visto antes. Numa daquelas figuras, feitas com pedras brancas e pretas, um remendo fez elefante. Só naquele pedaço de calçada tem aquele elefante. Durante todo o caminho do ônibus fiquei procurando ver se tinha outros elefantes pelas calçadas da cidade. Nada, viu. Aquele elefante está ali sozinho. Fiquei compadecido do elefante, mas fiquei feliz pelas araras. Sim, porque se ninguem notou, elas estão nos muros da cidade. Algum besta andou desenhando araras coloridas por ai. Não acredita? Pode correr até a esquina e ver.
Se fosse só isso, ainda ia. Vi poesia em tudo hoje. No meu grampeador em cima da mesa de madeira escura onde trabalho. Nas formas e jeitos pelo escritório. Nos olhares entre apaixonados do setor ao lado.
Na hora do almoço então foi um horror! Quando me dei conta dos tilintares das colherzinhas de café no balcão da padaria, quase elouqueci! Queria pegar um papel e fazer rimas, mesmo se as rimas não rimassem. Porque poesia é assim, não precisa nem rimar não, viu.
Quis também desenhar no asfalto com giz emprestado das crianças. Mas também me contive.
Foi assim, meu dia, meus senhores. Um infindável dia com tanta poesia.
Mas agora pego ela de jeito. Volto agora pra casa e jogo sal grosso nessa plantinha e quero ver dar mais florzinha!
Poesia de merda. E merda dita com sotaque carioca de filme brasileiro da década de setenta.
Que droga, até merda tem poesia. Outro rabo-de-galo! E me sirva dizendo meia dúzia de palavras que traduzam o mundo!

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