- Me veja uma pinga! E rápido!
Preciso de uma pinga pra me esquecer.
Sim, porque se ninguém mais tem coragem de admitir, eu ao contrário digo pra quem quiser ouvir nesse boteco nojento: Fui eu quem matou a poesia!
Ela estava lá todos os dias, me encarando quando eu acordava. Passando por entre as frestas da janela e fazendo figuras no teto. Depois, eu saia de casa e ela estava no rangido do portão, nos transeuntes que passavam por mim, no clima do dia, na cara das pessoas na fila do ônibus. E assim ia, durante todo o dia.
Primeiro tentei afogar ela no álcool. Depois botei fogo nas contas atrasadas e fiz uma pira fúnebre em sua homenagem. Homenagem de morte. Ai enterrei as cinzas dela no jardinzinho em frente de casa, onde um quadrado de terra de um por um metro insistia em querer dar um mato rasteiro numa terra seca e cheia de formiga.
Fiquei uns dias feliz, sem poesia pra ver. Os dias sem cor, as pessoas sem alma, e umas caras que não diziam nada.
Hoje de manhã, quando acordei não vi nada no teto e achei que ia ser mais um dia comum. Mas quando já ia fechar o portãozinho de ferro com o cadeadinho vi, no meio daquele mato bruto, uma florzinha amarelinha. Aí tudo desandou.
Já no ponto de ônibus uma menina de vestido de chita sorriu diferente e brincou com os dedos, fazendo sombra na calçada de pedra portuguesa. Aliás, na calçada achei um desenho que não tinha visto antes. Numa daquelas figuras, feitas com pedras brancas e pretas, um remendo fez elefante. Só naquele pedaço de calçada tem aquele elefante. Durante todo o caminho do ônibus fiquei procurando ver se tinha outros elefantes pelas calçadas da cidade. Nada, viu. Aquele elefante está ali sozinho. Fiquei compadecido do elefante, mas fiquei feliz pelas araras. Sim, porque se ninguem notou, elas estão nos muros da cidade. Algum besta andou desenhando araras coloridas por ai. Não acredita? Pode correr até a esquina e ver.
Se fosse só isso, ainda ia. Vi poesia em tudo hoje. No meu grampeador em cima da mesa de madeira escura onde trabalho. Nas formas e jeitos pelo escritório. Nos olhares entre apaixonados do setor ao lado.
Na hora do almoço então foi um horror! Quando me dei conta dos tilintares das colherzinhas de café no balcão da padaria, quase elouqueci! Queria pegar um papel e fazer rimas, mesmo se as rimas não rimassem. Porque poesia é assim, não precisa nem rimar não, viu.
Quis também desenhar no asfalto com giz emprestado das crianças. Mas também me contive.
Foi assim, meu dia, meus senhores. Um infindável dia com tanta poesia.
Mas agora pego ela de jeito. Volto agora pra casa e jogo sal grosso nessa plantinha e quero ver dar mais florzinha!
Poesia de merda. E merda dita com sotaque carioca de filme brasileiro da década de setenta.
Que droga, até merda tem poesia. Outro rabo-de-galo! E me sirva dizendo meia dúzia de palavras que traduzam o mundo!
Pensamentos ordinários, peripécias desimportantes, imagens inadvertidas e uma longa lista de poréns...
quinta-feira, agosto 31, 2006
quarta-feira, agosto 23, 2006
Estratégia
Com a banquinha montada ao lado de outra que vendia pilhas e despertadores, o jogador "da casa" mantinha dois tabuleiros de xadrez com os quais enfrentava os jogadores "visitantes". Esses podiam ser qualquer um que passasse na rua e quisesse, por alguns minutos, jogar uma partida. Bastava pagar uma módica quantia em dinheiro (coisa pouca, dinheiro de pinga, como alguns gostam de dizer).
- Mas e se eu ganhar? - lhe perguntavam algumas vezes.
- Tudo bem, sou um bom perdedor - ele respondia.
- Como assim? Não ganho nada em pagamento? Mas como, se eu lhe pago para jogar?
- Exatamente. Sem um adversário não se ganha e nem se perde.
- Mas e se eu ganhar? - lhe perguntavam algumas vezes.
- Tudo bem, sou um bom perdedor - ele respondia.
- Como assim? Não ganho nada em pagamento? Mas como, se eu lhe pago para jogar?
- Exatamente. Sem um adversário não se ganha e nem se perde.
Buda de aquário
Éramos uns moleques. Mas ele insistia no aquário.O dono do aquário era um japonês branquelo e alguns kilos a mais que o seu ideal. O apelido de Buda caiu perfeitamente, principalmente depois que rasparam sua cabeça no trote dos novatos.
Numa casa, onde moravam 11 dos mais variados tipos, ele, com aquários e cozinha gourmet com vinhos brancos importados, destoava. Pra nossa sorte e risadas (que na época não faltavam).
Ele insistia em trazer peixes, criá-los e fazer troça da nossa ignorância. Nós insistíamos em jogar toda a sorte de surpresa n'água para irritá-lo. Amarrávamos uma pedrinha ao fio-dental e este ao objeto, que ia ao fundo.
A cada tantos dias, limpava o aquário, retirava os trastes e, eventualmente, colocava novos espécimes com nomes lindos, substituídos automaticamente por apelidos jocosos por nós, os moleques.
Mas todos convivíamos bem, até. Assim como os peixes conviviam com os nossos brinquedos.
Paciência oriental.
quinta-feira, agosto 17, 2006
Plano B
"Eu tenho um plano", ele pensou.
E era um plano simples. Não precisava de cúmplice. Apenas de sua vontade.
O plano tinha ele como augoz e vítima, e para tanto, bastava encaixar seus dedos suados em uma reluzente arma à sua frente e...click!
Mas o plano não seria posto em prática hoje.
Desligou as luzes e foi observar a cidade da sacada, ilumidada nesse momento pelas luzes noturnas.
"Eu tenho um plano", sorriu e soltou uma baforada do primeiro de vários cigarros de um condenado enquanto tirava uma foto com uma máquina imaginária da cena que via àquela hora da madrugada.
- Click!
E era um plano simples. Não precisava de cúmplice. Apenas de sua vontade.
O plano tinha ele como augoz e vítima, e para tanto, bastava encaixar seus dedos suados em uma reluzente arma à sua frente e...click!
Mas o plano não seria posto em prática hoje.
Desligou as luzes e foi observar a cidade da sacada, ilumidada nesse momento pelas luzes noturnas.
"Eu tenho um plano", sorriu e soltou uma baforada do primeiro de vários cigarros de um condenado enquanto tirava uma foto com uma máquina imaginária da cena que via àquela hora da madrugada.
- Click!
Ilhado
- E quando nos vemos?
- Quando nossa amiga for pra Cuba.
- Por quê?
- Porque ai não volto mais.
- Por quê?
- Porque ai quem vai pra uma ilha sou eu.
- Quando nossa amiga for pra Cuba.
- Por quê?
- Porque ai não volto mais.
- Por quê?
- Porque ai quem vai pra uma ilha sou eu.
Last great american whale
Todos temos nossa grande baleia branca para perseguir.
Ahab achou a dele. Será que a minha também vai enlaçar minhas pernas e me puxar pras profundezas de algum oceano?
De certa forma prefiro isso a cavar minha própria cova. Um pouco de surpresa pelo menos.
Mas onde achar uma dessas? Minha mãe diz que viu uma na Liberdade, mas não se pode confiar muito nas mães.
Ahab achou a dele. Será que a minha também vai enlaçar minhas pernas e me puxar pras profundezas de algum oceano?
De certa forma prefiro isso a cavar minha própria cova. Um pouco de surpresa pelo menos.
Mas onde achar uma dessas? Minha mãe diz que viu uma na Liberdade, mas não se pode confiar muito nas mães.
Dor de dentro do interior do fundo
Dói.
Dói de doer dentro da carne. Dói a alma que está por dentro do dentro da carne e dos ossos. Aperta o coração, a barriga, a cabeça...aperta tudo.
Mas é assim. E assim se vai.
Agora, o por quê de tão devagar? Devia ir como um espirro.
- Atchin!
- Saudade!
Dói de doer dentro da carne. Dói a alma que está por dentro do dentro da carne e dos ossos. Aperta o coração, a barriga, a cabeça...aperta tudo.
Mas é assim. E assim se vai.
Agora, o por quê de tão devagar? Devia ir como um espirro.
- Atchin!
- Saudade!
quarta-feira, agosto 16, 2006
Convivência
Os três de fone, a vida com trilha sonora de cada um.
De repente silêncio, olhares cruzados até alguém constatar: a rede caiu?
- Bom, se estamos conversando é porque sim...
- A rede voltou.
- Tchau! Odeio vocês.
De repente silêncio, olhares cruzados até alguém constatar: a rede caiu?
- Bom, se estamos conversando é porque sim...
- A rede voltou.
- Tchau! Odeio vocês.
segunda-feira, agosto 14, 2006
Sorriso de criança
Entre um bocado e outro, sorridente, ela mexia no celular da mãe.
- Olha, esse é o Bob, e essa é a Sandy - mexeu no botão - esse é o tio Thiago....olha, essa é legal, faz uma estrela.
O sorriso da mãe, lindo e branco, muito branco. O celular era dela, mas não sabia mexer não.
Entre uma figura e outra, comia um bocadinho, sem tirar os olhos da tela brilhante, pequenina como ela.
Finalmente achou o queria mostrar. "Olha a foto do meu dedo!!!" e caiu na gargalhada. Dentes lindos e brancos, muito brancos, como os da mãe.
- Olha, esse é o Bob, e essa é a Sandy - mexeu no botão - esse é o tio Thiago....olha, essa é legal, faz uma estrela.
O sorriso da mãe, lindo e branco, muito branco. O celular era dela, mas não sabia mexer não.
Entre uma figura e outra, comia um bocadinho, sem tirar os olhos da tela brilhante, pequenina como ela.
Finalmente achou o queria mostrar. "Olha a foto do meu dedo!!!" e caiu na gargalhada. Dentes lindos e brancos, muito brancos, como os da mãe.
Garrafa
Dois cigarros depois, calmo, resolvi voltar pra cama.
Dessa vez um sono leve veio e tomou conta da vontade.
Lá longe, a garrafa atravessava o mar e chegava em alguém.
Um poema, uma palavra e um suspiro. Devidamente selado com um beijo e atirado ao mar dias antes.
Dessa vez um sono leve veio e tomou conta da vontade.
Lá longe, a garrafa atravessava o mar e chegava em alguém.
Um poema, uma palavra e um suspiro. Devidamente selado com um beijo e atirado ao mar dias antes.
sexta-feira, agosto 11, 2006
Bituca
Dobrou a esquina e foi amor a primeira vista.
Ela tragou e baforou. Ele continuou a seguí-la admirando seus cachos balançando, imaginando todos os outros movimentos.
Quando ela terminou o cigarro, jogou entre um requebrada e outra.
Ele se abaixou, pegou e bituca e foi atrás. Ao alcance do braço, cutucou o ombro dela. Ela se virou.
"Você deixou cair", ele disse sorrindo. Ela sorriu de canto de boca, se virou e continuou o trajeto.
Ele entrou na padaria, parou no balcão e pediu um maço de cigarros "...e uma porção de bom humor por favor."
- Tá em falta.
- Então me veja aquele sonho na vitrine.
Ela tragou e baforou. Ele continuou a seguí-la admirando seus cachos balançando, imaginando todos os outros movimentos.
Quando ela terminou o cigarro, jogou entre um requebrada e outra.
Ele se abaixou, pegou e bituca e foi atrás. Ao alcance do braço, cutucou o ombro dela. Ela se virou.
"Você deixou cair", ele disse sorrindo. Ela sorriu de canto de boca, se virou e continuou o trajeto.
Ele entrou na padaria, parou no balcão e pediu um maço de cigarros "...e uma porção de bom humor por favor."
- Tá em falta.
- Então me veja aquele sonho na vitrine.
quinta-feira, agosto 10, 2006
Digerir o dia
Almoço deveria ter no minimo 8 horas. Tempo o suficiente pra digerir o dia.
Acordaríamos, tomaríamos um café-da-manhã com frutas e fibras, pouco laticínios e café preto com açúcar cristal. Iríamos trabalhar.
Melhor se fosse verão. Ao meio-dia e pouco, sairíamos, escolheríamos um bom restaurante com mesas do lado de fora, guarda-sol aberto e vista pra outros restaurantes e pra rua vazia neste horário.
Cumprimentaríamos uns aos outros cordialmente enquanto nos servíssemos (pois claro, também os garçons estariam almoçando). Primeiro um copo de uma bebidinha pra abrir o apetite, depois salada, prato de entrada, prato principal, um caldinho pra finalizar. Depois sobremesa, café, licor e cigarros, pros que apreciam o sabor.
Durante as horas seguintes prosas em dia, assuntos diversos. Também não teríamos mesas fixas, poderíamos andar por aqui e por ali, mudando as pessoas, humores, condimentos e a sorte de sentar à sombra.
Depois todos retornariam aos seus respectivos trabalhos, com o dia digerido e a sensação de ter feito tudo e mais um pouco.
Acordaríamos, tomaríamos um café-da-manhã com frutas e fibras, pouco laticínios e café preto com açúcar cristal. Iríamos trabalhar.
Melhor se fosse verão. Ao meio-dia e pouco, sairíamos, escolheríamos um bom restaurante com mesas do lado de fora, guarda-sol aberto e vista pra outros restaurantes e pra rua vazia neste horário.
Cumprimentaríamos uns aos outros cordialmente enquanto nos servíssemos (pois claro, também os garçons estariam almoçando). Primeiro um copo de uma bebidinha pra abrir o apetite, depois salada, prato de entrada, prato principal, um caldinho pra finalizar. Depois sobremesa, café, licor e cigarros, pros que apreciam o sabor.
Durante as horas seguintes prosas em dia, assuntos diversos. Também não teríamos mesas fixas, poderíamos andar por aqui e por ali, mudando as pessoas, humores, condimentos e a sorte de sentar à sombra.
Depois todos retornariam aos seus respectivos trabalhos, com o dia digerido e a sensação de ter feito tudo e mais um pouco.
Valentia
- Opa, mas o cara estava mexendo com minha menina!
Na verdade eram dois. Começou em um semáforo. Ela estava na direção. O machismo fez completou a sentença. Acharam que ele era o amigo.
Foram assim, seguindo, parando do lado e dando olhadelas e risadinhas.
Ela achou engraçado, mas não deu muita bola. Estava acostumada a passar por isso todo dia, o dia todo. O machismo sempre completava a sentença.
Mas ele não gostou.
Primeiro tentou olhar feio. Sem efeito. Isso durante os três primeiros semáforos. Emburrou, cruzou os braços, bufou. Também não adiantou de nada.
No último semáforo mudou o tom. Quando eles olharam não deixou por menos, levantou o óculos de sol até a testa, piscou e mandou um beijinho.
- Funcionou!
Realmente, viraram logo na próxima esquina. Seja porque a tática deu certo, seja porque era o caminho deles.
Na verdade eram dois. Começou em um semáforo. Ela estava na direção. O machismo fez completou a sentença. Acharam que ele era o amigo.
Foram assim, seguindo, parando do lado e dando olhadelas e risadinhas.
Ela achou engraçado, mas não deu muita bola. Estava acostumada a passar por isso todo dia, o dia todo. O machismo sempre completava a sentença.
Mas ele não gostou.
Primeiro tentou olhar feio. Sem efeito. Isso durante os três primeiros semáforos. Emburrou, cruzou os braços, bufou. Também não adiantou de nada.
No último semáforo mudou o tom. Quando eles olharam não deixou por menos, levantou o óculos de sol até a testa, piscou e mandou um beijinho.
- Funcionou!
Realmente, viraram logo na próxima esquina. Seja porque a tática deu certo, seja porque era o caminho deles.
terça-feira, agosto 08, 2006
Você gosta d'eu?
"Você ainda gosta de mim?"
A resposta foi sim. Depois disso um silêncio interminável.
Um quase encontro, um quase sorriso, um interminável enfim e uma infinidade de poréns e fugas um do outro.
Passou o tempo. A lembrança ficou cinza. A memória, tadinha, lembrava-se das boas coisas. O corpo deixou de sentir falta, o cheiro se desfez (amaciante é uma coisa, deixa até cheiro de sol, diz o fabricante).
Aí foi assim: veio outra e tudo de novo. Mas dessa vez sem a pergunta e o silêncio.
-"Psiu, fala baixo, não acorda o coração". Tá, tá, já estou saindo. Deixa que eu apago a luz, que a noite é bela e dorme linda.
A resposta foi sim. Depois disso um silêncio interminável.
Um quase encontro, um quase sorriso, um interminável enfim e uma infinidade de poréns e fugas um do outro.
Passou o tempo. A lembrança ficou cinza. A memória, tadinha, lembrava-se das boas coisas. O corpo deixou de sentir falta, o cheiro se desfez (amaciante é uma coisa, deixa até cheiro de sol, diz o fabricante).
Aí foi assim: veio outra e tudo de novo. Mas dessa vez sem a pergunta e o silêncio.
-"Psiu, fala baixo, não acorda o coração". Tá, tá, já estou saindo. Deixa que eu apago a luz, que a noite é bela e dorme linda.
Erê de msn
As pessoas têm seu lugar, me parece, até no msn.
Procuro pelo amigo ou pela amiga já nos lugares certos, na pequena listagem da janelinha que me liga a um mundo tão grande quanto 150x300 pixels.
Lá todos já têm uma lógica para serem reconhecidos. Alguns com o nome primeiro, depois uma citação. Outros criando histórias imaginárias, para puxar assunto talvez. E aqueles que são um mistério e que se perdem nas dezenas da listagem.
Gosto desses últimos, com um jogo de adivinha implícito. Diz respeito ao humor, ao um filme assistido, a uma música marcante ou alguma brincadeira com o sentido das coisas.
Quando estou inspirado também brinco desse esconde-esconde nas palavras. Erê cybernético pra incorporar o orixá-virtual que baixa em cada uma dessas interfaces mundo afora.
Procuro pelo amigo ou pela amiga já nos lugares certos, na pequena listagem da janelinha que me liga a um mundo tão grande quanto 150x300 pixels.
Lá todos já têm uma lógica para serem reconhecidos. Alguns com o nome primeiro, depois uma citação. Outros criando histórias imaginárias, para puxar assunto talvez. E aqueles que são um mistério e que se perdem nas dezenas da listagem.
Gosto desses últimos, com um jogo de adivinha implícito. Diz respeito ao humor, ao um filme assistido, a uma música marcante ou alguma brincadeira com o sentido das coisas.
Quando estou inspirado também brinco desse esconde-esconde nas palavras. Erê cybernético pra incorporar o orixá-virtual que baixa em cada uma dessas interfaces mundo afora.
O gosto do meu amor
Passei na subida da rua e comprei um saquinho de mexericas.
Tinham o gosto do sorriso com as bochechas que eclipsavam os olhos e do beijo bem humorado dela.
Tinham o gosto do sorriso com as bochechas que eclipsavam os olhos e do beijo bem humorado dela.
segunda-feira, agosto 07, 2006
Pequenas porções

A vida vem em pequenas porções individuais, com data de validade e algumas combinações possíveis.
A vida pode ser light, pode ser original, pode ser descafeinada, desnatada, contendo glúten, com fibras ou não recomendada para diabéticos.
A vida pode ser mordiscada ou engolida de uma só vez. Você pode optar pela vida mais amarga, bastando apenas evitar a adição de açúcares e adoçantes.
A vida, in natura, é doce, bastando apenas estar madura. Se estiver verde amarra a boca e dá tontura. Se tomada com leite pode dar em morte.
A vida pode ser tomada de uma só vez, virando o copo e fazendo careta depois. A vida pode ser apreciada pelo bouquet, coloração, gosto florado e safra: normalmente vida importada, italiana ou chilena. Tem aqueles que preferem a vida com gelo ou diluída em tônica.
Prefiro a vida assim, saborosa, no ponto, com uma pitada de pimenta.
Duro quanto a vida fica engasgada.
DIzem pra comer miolo de pão quando é assim, que o espinho logo desce.
quinta-feira, agosto 03, 2006
Palavras molinhas

O pai aponta, diz algumas palavras com uma voz fininha e mole e olha pro filho esperando um olhar de compreensão.
O filho olha no fundo dos olhos do pai como fosse dizer algo profundo (o sentido da vida e do universo como conhecemos por exemplo), mas...nada. Balbucia alguns sons, olha pra algum lugar perto de onde o pai apontara e também aponta, esperando que o jogo fosse descobrir onde era o lugar exato que o pai havia deixado aquelas palavras.
Aponta e...nada. Tenta um segundo ponto perto do primeiro. Também não sai nada. Olha pro pai: "Mas afinal como se joga isso, pai?". O que sai são umas quase palavras molinhas, molinhas.
Afinal ele é só uma pessoa nascendo aos pouquinhos, dando seus primeiros passos em direção ao fim, sem conhecer o jogo que o pai esta tentando ensinar.
O pai aponta outro lugar, outra coisa, fala com uma voz fininha e mole e olha de novo pra ele e...nada.
quarta-feira, agosto 02, 2006
Certas coisas
Certas coisas são feitas pra ficar onde estão.
É tirar do lugar pra ver que fica um buraco. Preencha com tempo, um pouquinho de água e muita cinza de cigarro. A argamassa quase não serve de nada, mas fica uma belezura.
É tirar do lugar pra ver que fica um buraco. Preencha com tempo, um pouquinho de água e muita cinza de cigarro. A argamassa quase não serve de nada, mas fica uma belezura.
terça-feira, agosto 01, 2006
Cuidado ao caçar tornados
Vêm do nada, são lindos, são fortes. Te levantam do chão, fazem você girar. Eles te levam alto mesmo. Outras coisas suas também vão junto e mais um turbilhão de outras coisas estão com você lá no alto. Lá de cima tudo é pequeno e no meio de tudo isso uma calmaria: abaixo uma névoa, acima um céu.
De repente você pousa. Ou então cai. A natureza é macia mas a lei da gravidade, implacável.
De repente você pousa. Ou então cai. A natureza é macia mas a lei da gravidade, implacável.
Pikiwis
- Pikiwi!
- Bem-te-vi. - eu disse firmemente.
Mas fiquei pensando com meus botões, o que levarai um bem-te-vi a ser um pikiwi. Talvez toda essa globalização tenha mexido com a natureza. Talvez os bem-te-vis tenham se internacionalizado. Afinal pikiwi tem uma fácil leitura em inglês assim com pickles, picnick e outras palavras assim.
Assim os pikiwis quando ganhassem fama internacional, astros de algum programa sobre animais na TV, ganhariam também a boca do povo mundo afora.
Em toda a América do Norte as pessoas pensariam "mas que inferno, um pássaro tão bonito e com um nome tão empolgante nascer na outra América pros lados do México". Na França, além de filosofia e do preço da baguete, comentariam sobre o soberbo animalzinho brasileiro. "Exotique", diriam eles, como falam pra tudo que não é francês, ou é estranho, ou simplesmete exótico mesmo.
No Japão alguma empresa registraria o nome, e os pikiwis virariam nome de produtos diversos, talvez até nome de avião: Pikiwi TransAir 9600, com capacidade para 90 passageiros (e 6 tripulantes).
Seja lá como for, os pikiwis, chamados antigamente de bem-te-vis, seriam assim outro símbolo da terra tupiniquim. Na Inglaterra ou qualquer outro país do mundo seríamos reconhecidos. "Oh, Brazil? Futebol, Pelé, samba...pikiwis!...you know, that birds..."
- Bem-te-vi. - eu disse firmemente.
Mas fiquei pensando com meus botões, o que levarai um bem-te-vi a ser um pikiwi. Talvez toda essa globalização tenha mexido com a natureza. Talvez os bem-te-vis tenham se internacionalizado. Afinal pikiwi tem uma fácil leitura em inglês assim com pickles, picnick e outras palavras assim.
Assim os pikiwis quando ganhassem fama internacional, astros de algum programa sobre animais na TV, ganhariam também a boca do povo mundo afora.
Em toda a América do Norte as pessoas pensariam "mas que inferno, um pássaro tão bonito e com um nome tão empolgante nascer na outra América pros lados do México". Na França, além de filosofia e do preço da baguete, comentariam sobre o soberbo animalzinho brasileiro. "Exotique", diriam eles, como falam pra tudo que não é francês, ou é estranho, ou simplesmete exótico mesmo.
No Japão alguma empresa registraria o nome, e os pikiwis virariam nome de produtos diversos, talvez até nome de avião: Pikiwi TransAir 9600, com capacidade para 90 passageiros (e 6 tripulantes).
Seja lá como for, os pikiwis, chamados antigamente de bem-te-vis, seriam assim outro símbolo da terra tupiniquim. Na Inglaterra ou qualquer outro país do mundo seríamos reconhecidos. "Oh, Brazil? Futebol, Pelé, samba...pikiwis!...you know, that birds..."
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