terça-feira, novembro 21, 2006

Reveja seus conceitos

- E a campanha, aprovada?
- Não.
- Mas o conceito era tão legal...
- De bons conceitos o inferno tá cheio. E se conceito fosse bom, ninguém dava.
- ...
(Momento patada. São parcos, mas acontecem)

Todo fim tem

Geométrico 2

terça-feira, novembro 14, 2006

Fotoato

Continuando a discussão iniciada aqui e aqui, para ver até onde vai a elasticidade e possibilidades do conceito.

domingo, novembro 12, 2006

Maçã

- Claro, além de tudo é mais seguro. Imagina, entrar no internet banking de um PC, ou baixar alguma coisa, ou mesmo ver email, vá que não é um servidor seguro...
- Além de pornografia, né?
- ...?
- Do jeito que você está falando parece aqueles sujeitos que compram a Playboy por causa da reportagem.
-...?
- Sarcasmo, meu caro Watson.
- Ah....sim...é...
- Mentira, na verdade eu estava divagando sobre a relação fetichiosa sobre os objetos de consumo e fiz um paralelo sobre o fetichismo sexual ilustrado pelas revistas de nu feminino dedicado ao público masculino.
- Sim, claro, e além disso tem aquele autor assim-assado que fala sobre tal-coisa-assim-assada (e vai bla-bla-bla e aqui eu faço link com um texto que li esses dias e que cabe perfeitamente nesse caso)

terça-feira, novembro 07, 2006

Adiantado

Fiquei velho de repente.
As rugas apareceram em um rosto que mal reconheci como sendo o meu.
A barba que tinha alguns fios brancos agora era a de um senhor. Os cabelos caíram revelando a parte de cima da cabeça. A carne ficou flácida, mole, em cima dos ossos doloridos.
Comecei a repetir a rotina um dia após o outro. O medo aumentou, os cadeados e as trancas cresceram em número.
A vontade foi enfraquecendo. Parei de acompanhar a passagem do tempo, já não ligava pras novidades.
Contava histórias para não perdê-las junto com meus caminhos.
Quando nem isso me lembrava mais, adormeci. E nunca mais acordei.

Alinhavado

Um rolo de barbante uniu várias plantas no jardim de inverno. Uma cama de gato para os passarinhos que ali vinham bicar vez ou outra.
Outro rolo trançou as escadas, dando aos adultos que por ali transitavam, a idéia do desejo de pular em uma cama elástica e voltar de onde vinham.
Agora era a hora de ler outros dois rolos que se entrelaçavam pelo prédio afora, enrrolando objetos e criando histórias inventadas, improvisadas numa pausa, ou silenciosas mesmo.
Na porta uma história dava meia volta. A outra ia mundo afora procurando ver no cotidiano poesia nos objetos que ainda não havia enlaçado.
Um dia quente e brilhante, com muitas pessoas para inventar histórias.

Montevidéo por Vagner

http://www.mru-vru.com/montevideo/




terça-feira, outubro 31, 2006

Talvez

Então nos falamos cada vez menos. Um dia paramos por completo. Dia ou outro era um oi ou bom dia.
Depois nos encontraríamos na rua. Sem assunto puxaríamos um papo sem importância. Simpático, eu sugeriria algum assunto. Ou talvez não. Talvez com pressa ou de mau humor. Talvez não quisesse.
- Me passa seu email, acho que perdi.
- Claro, tá aqui meu cartão.
- Aproveita e anota o meu.
- Tem papel?
- Tenho, e tá aqui a caneta.
- Legal, vamos combinar algo.
- Vamos sim.
- E tal coisa assim.
- Qual? Ah, larguei no meio.
- Legal.
- Beijo, a gente se vê.
- Isso. Mas não pode furar!
- Pode deixar.
Nos viraríamos e continuaríamos nosso caminho. Pode ser que um de nós se virasse para trás uma última vez. Talvez não.

domingo, outubro 22, 2006

Video conceito

Esse video é uma colagem de alguns pedaços de vídeos que fiz durante a caminhada do grupo de "Poéticas Visuais" pelo centro de Campinas.
Não sou profissional, apenas curioso. E, cá entre nós, não é vídeo, são fotografias com um longo tempo de exposição.
Atualizando: nos vídeos de Montevidéo, mais umas questões do que é foto e o que é vídeo. Montevídeos, como eu e o Vagner (companheiro de viagens teóricas) brincamos. Mas talvez caiba "fotoação" ou algum neologismo.

Dois hotéis no tempo

Agora com as pálpebras cerradas, guardavam a recordação de dias melhores. Nem sonhos mais tinham.

Acordeão

Fosse pra espantar os fantasmas ou chamar fregueses, o dono do bar tocava o instrumento em uma dimensão própria.
Sorri e com um abano de cabeça pedi licença. Com outro abano de cabeça ele respondeu sim. Fotografei, sorri e fiz menção de bater palmas (não bati por respeito à música: não se deve interromper). Ele sorriu de volta e fez menção em agradecer (também não o fez em respeito ao público: não se deve interromper). E ficou lá, soltando "Moreninha linda do meu bem querer" para o bar vazio.

20

A definição de lembrancinhas, miudezas e quinquilharias levaria horas, pode crer.

Tempo

(pause) Não consigo não pensar em um túnel do tempo levando apenas os prédios e o senhor em destaque. (solta pause)

Proteção

Em uma savana africana, um poster das ruas de Campinas.

Caramelo, Chocolate, Biscoito

Top of Mind no lixão mais próximo.

Supletivo

Supletivo.

Corpo

Entre bêbado e morto são algumas horas de espera.

Sete


É uma colagem de duas fotos.
-Ah, vá! Você nem percebeu, falaverdade.

Ponto de fuga

Tudo andando. Vamos, vamos (buzina, motor acelerado, olhar feio: "Tá atraplalhando o trânsito"). Existe na cidade (nas cidades) toda uma rede de proteção ao pedestre, para evitar que esses bichos motorizados nos mordam. Em um terminal de ônibus me sinto, às vezes, na jaula dos leões. Abrem-se as portas basculantes e vamos nós fazer o velho truque de pôr a cabeça na boca deles.
E se morde?

Flores

Mesmo entre o concreto da cidade, desabrocham.

Abertura pro céu

Protegidos ou cerceados?

Espelho

São duas fotos, mas a idéia era mostrar essas repetições. a idéia era mostrar essas repetições.

Vigilante

Sob o olhar atento do status quo, todo um enxame de subversivos e piratas.

Ervas


Aroma. Essa é a palavra.

Ao meio

O Brasil é uma colagem. Conceito amplo, diga-se de passagem. (rima, rima, rimador...)

Decifra-me

Entretido em algum tipo de jogo (arrisco o palpite: Sudoku, essa "mania nacional") o cidadão nem notou as minhas várias tentativas de fazer a foto.
Foco, transeuntes, composição, detalhes técnicos, tudo pacientemente resolvido sem que o homem sequer me notasse.
Concentração! É o que os orientais ensinam.

Respiro

Entre os túneis que ligam o calçadão ao Terminal, respira-se.

Condomínio Fechado

Um detalhe nos túneis que levam ao Terminal de Ônibus de Campinas: têm uma infra-estrutura proveniente da superestrutura cidade. Fios de força "gateados" iluminam as sombras que se formam certas horas do dia.
O público que é tão público que pode ser individualizado. É meu, é dele, é seu. Mas quem fez o gato leva vantagem.

Túneis

Do calçadão de Campinas ao Terminal de ônibus é possível cortar caminho por uma série de túneis, esses povoados por camelôs de todos os tipos e níveis de necessidades de consumo.

Pra onde vai o fluxo

Esses sim. Manequins menos esnobes, o reflexo do lado de cá em forma viva. Aposto que as figuras na foto de baixo invejam todo esse nosso movimento, ou até esse visual.

Desejo e reflexo


A foto dos manequins deveria dialogar com a foto de cima. Ao contrário, dialogou com meu reflexo e de meus companheiros de movimento.

Leia atentamente

Humor negro, eu sei.
Péssima atitude, foto descontextualizada. Também sei.
Mas o dedo não resistiu.
Mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa.

Vide Bula

Lendo as instruções, convenhamos: pixação não é cartaz.

Catacumbas

Tiraram algumas tábuas debaixo de um tapete velho, atrás do altar. Algo secretíssimo.
Embaixo da igreja, a tumba de alguns bispos. Abafado e apertado o lugar se enche de turistas (os mesmos da linha de empedimento contra a beata). Tem quatro bispos em gavetas, e lugar pra mais meia dúzia.
A cara de frustração é geral. Igreja grande, merecia catacumbas que fizessem juz ao nome.
Podiam ter escavado um pouco mais. Custava nada. Nem que enterrassem alguns padres de hierarquia menor. Vai ver o plano de carreira não incluía.

Nossa Senhora do Canto Direito


Sou ruim pra santo. Admito. Nas várias versões da Nossa Senhora (lógica também aplicável para bonequinhos do Spawn), fiquei na dúvida dessa.
Minha mãe que não me veja titubeando.
-Mas manto azul, meu filho, é claro que é a Nossa Senhora...(complete aqui).

Oferendas

-Cada qual, vela de tal cor.
Faz favor não confundir. No céu lá é uma burocracia rapaz!

Alá!

Escada para o céu

Não é difícil de se espantar com uma escada no meio da nave principal da igreja.
Também não é difícil achar estranho toda a dinâmica dentro da Igreja Matriz. Assim como na Sé, os turistas marcham em bandos enquanto os fiéis se concentram para fazer a oração.
Uma beata, com seus afazeres de beata, dribla dois ou três turistas (nós entre eles) e marca seu ponto, arrumando a toalhinha no palanque. Quase soltei um animado "Gooooooool!" mas achei melhor não. A senhorinha não era das que parecia levar uma brincadeira na esportiva (com o perdão do trocadilho).

Vigiar e proteger


Estávamos, nós o grupo de "Poéticas Visuais", em uma rodinha, quando a viatura se deslocou para perto da gente. Afinal podia ser baderna, arruaça. Ou então julguei mal e éramos visados por uma orda de mal elementos invisíveis a nossos olhos de artistas.
Uma coisa ou outra, estávamos bem acompanhados: deus e a polícia. Ambos de alguma forma tentam, ostencivamente te salvar de algo que pode vir a acontecer, mas que não é certeza.
Começamos a caminhada pelo centro de Campinas, onde iríamos dar uma de astronautas antropólogos e tentar enxergar a estrutura invisível aos transeuntes e as relações entre esses últimos e a cidade.
-Para o alto e avante! - e saimos voando.

terça-feira, outubro 03, 2006

Caça

Sangue de caçadores, imagino. Porque quando a barata se aventurou em seu quarto notou de canto de olho.
As havaianas já descalçadas debaixo da cama foram retomadas pela mão ainda enrrugada do banho.
Ficou à espreita e deu o bote. Bicho esperto que era aquele inseto, escapou rapidinho pro canto atrás do guarda-roupa.
Como o sangue que corria trazia consigo talvez um remoto instinto dos ascendentes longinquos, fez tocaia, movendo alguns móveis, abrindo clareiras onde a arma pudesse ser usada com exatidão na hora do abate. Depois foi pra porta da caverna, feita de duas paredes e um guarda-roupa. Lembrou de como a professora, muito tempo atrás, mostrou no livro onde homens da caverna empurravam o mamute para o precipício. Jogou um chinelo pra assustar o incômodo inseto e esperou do outro lado.
Por um segundo, ou menos que isso, quando para sair de seu esconderijo, o inseto e seu algoz se entreolharam no que pareceu serem longos minutos. O pequeno ser disparou, correndo pela sua (breve) vida. Foi fulminada pela segunda investida da chinela.
- Bicho burro - pensou, mastigando um sentimento de dever cumprido no fundo da alma - Te peguei.

quinta-feira, setembro 28, 2006

Brinquedo

Na vizinhança traquila o carro parado depois de várias tentativas de fazê-lo pegar era uma atração.
Alguns vizinhos se empoleiravam por cima do capô para dar todo tipo de opinião. Uma lição de mecânica bem aproveitada, apesar dos nomes estranhos das peças, algumas inventadas para impressionar uns aos outros, tinha certeza.
Passado todas as tentativas de fazer o outrora bólido de metal pegar não restaram alternativas a não ser deixá-lo encostado na guia, poucos metros de onde estava parado no começo da gincana de adivinhações.
Dispersado os vizinhos, todos um pouco frustrados por não terem um motivo para comemorar era hora de chamar o mecânico. Acabara o momento de menino dos homens crescidos: o brinquedo estava mesmo quebrado.

Musa

Olhava a tela há horas, sem a mínima idéia do que escrever.
Eventualmente saía, dava uma volta, fumava um cigarro ou dois, olhava as estrelas (que agora podiam ser vistas, graças ao calor infernal das noites do inverno atípico). Algumas das rondas podiam incluir ir até a geladeira e abrir a porta. Não que houvesse fome mas o hábito, recompensado pela brisa fresca que saía de lá, era mais forte.
Voltava e ainda não havia idéia do que escrever.
Antes não. Tinha diversas idéias, e o hábito virou diário. Mas agora a inspiração estava estancada, apesar da musa estar presente, de olho por sobre os ombros. Era uma imagem recorrente, a dela, à meia luz e com os olhos negros perdidos entre o lusco-fusco e as sombras da coberta, sorrindo cansada e leve.
Era tanto pra se dizer que a tela continuava em branco, pois sabia que ia faltar palavras pra descrever toda a intensidade.

quinta-feira, agosto 31, 2006

Fui eu!

- Me veja uma pinga! E rápido!
Preciso de uma pinga pra me esquecer.
Sim, porque se ninguém mais tem coragem de admitir, eu ao contrário digo pra quem quiser ouvir nesse boteco nojento: Fui eu quem matou a poesia!
Ela estava lá todos os dias, me encarando quando eu acordava. Passando por entre as frestas da janela e fazendo figuras no teto. Depois, eu saia de casa e ela estava no rangido do portão, nos transeuntes que passavam por mim, no clima do dia, na cara das pessoas na fila do ônibus. E assim ia, durante todo o dia.
Primeiro tentei afogar ela no álcool. Depois botei fogo nas contas atrasadas e fiz uma pira fúnebre em sua homenagem. Homenagem de morte. Ai enterrei as cinzas dela no jardinzinho em frente de casa, onde um quadrado de terra de um por um metro insistia em querer dar um mato rasteiro numa terra seca e cheia de formiga.
Fiquei uns dias feliz, sem poesia pra ver. Os dias sem cor, as pessoas sem alma, e umas caras que não diziam nada.
Hoje de manhã, quando acordei não vi nada no teto e achei que ia ser mais um dia comum. Mas quando já ia fechar o portãozinho de ferro com o cadeadinho vi, no meio daquele mato bruto, uma florzinha amarelinha. Aí tudo desandou.
Já no ponto de ônibus uma menina de vestido de chita sorriu diferente e brincou com os dedos, fazendo sombra na calçada de pedra portuguesa. Aliás, na calçada achei um desenho que não tinha visto antes. Numa daquelas figuras, feitas com pedras brancas e pretas, um remendo fez elefante. Só naquele pedaço de calçada tem aquele elefante. Durante todo o caminho do ônibus fiquei procurando ver se tinha outros elefantes pelas calçadas da cidade. Nada, viu. Aquele elefante está ali sozinho. Fiquei compadecido do elefante, mas fiquei feliz pelas araras. Sim, porque se ninguem notou, elas estão nos muros da cidade. Algum besta andou desenhando araras coloridas por ai. Não acredita? Pode correr até a esquina e ver.
Se fosse só isso, ainda ia. Vi poesia em tudo hoje. No meu grampeador em cima da mesa de madeira escura onde trabalho. Nas formas e jeitos pelo escritório. Nos olhares entre apaixonados do setor ao lado.
Na hora do almoço então foi um horror! Quando me dei conta dos tilintares das colherzinhas de café no balcão da padaria, quase elouqueci! Queria pegar um papel e fazer rimas, mesmo se as rimas não rimassem. Porque poesia é assim, não precisa nem rimar não, viu.
Quis também desenhar no asfalto com giz emprestado das crianças. Mas também me contive.
Foi assim, meu dia, meus senhores. Um infindável dia com tanta poesia.
Mas agora pego ela de jeito. Volto agora pra casa e jogo sal grosso nessa plantinha e quero ver dar mais florzinha!
Poesia de merda. E merda dita com sotaque carioca de filme brasileiro da década de setenta.
Que droga, até merda tem poesia. Outro rabo-de-galo! E me sirva dizendo meia dúzia de palavras que traduzam o mundo!

Lá dentro, só sorrisos

quarta-feira, agosto 23, 2006

Estratégia

Com a banquinha montada ao lado de outra que vendia pilhas e despertadores, o jogador "da casa" mantinha dois tabuleiros de xadrez com os quais enfrentava os jogadores "visitantes". Esses podiam ser qualquer um que passasse na rua e quisesse, por alguns minutos, jogar uma partida. Bastava pagar uma módica quantia em dinheiro (coisa pouca, dinheiro de pinga, como alguns gostam de dizer).
- Mas e se eu ganhar? - lhe perguntavam algumas vezes.
- Tudo bem, sou um bom perdedor - ele respondia.
- Como assim? Não ganho nada em pagamento? Mas como, se eu lhe pago para jogar?
- Exatamente. Sem um adversário não se ganha e nem se perde.

Buda de aquário

Éramos uns moleques. Mas ele insistia no aquário.
O dono do aquário era um japonês branquelo e alguns kilos a mais que o seu ideal. O apelido de Buda caiu perfeitamente, principalmente depois que rasparam sua cabeça no trote dos novatos.
Numa casa, onde moravam 11 dos mais variados tipos, ele, com aquários e cozinha gourmet com vinhos brancos importados, destoava. Pra nossa sorte e risadas (que na época não faltavam).
Ele insistia em trazer peixes, criá-los e fazer troça da nossa ignorância. Nós insistíamos em jogar toda a sorte de surpresa n'água para irritá-lo. Amarrávamos uma pedrinha ao fio-dental e este ao objeto, que ia ao fundo.
A cada tantos dias, limpava o aquário, retirava os trastes e, eventualmente, colocava novos espécimes com nomes lindos, substituídos automaticamente por apelidos jocosos por nós, os moleques.
Mas todos convivíamos bem, até. Assim como os peixes conviviam com os nossos brinquedos.
Paciência oriental.

quinta-feira, agosto 17, 2006

Plano B

"Eu tenho um plano", ele pensou.
E era um plano simples. Não precisava de cúmplice. Apenas de sua vontade.
O plano tinha ele como augoz e vítima, e para tanto, bastava encaixar seus dedos suados em uma reluzente arma à sua frente e...click!
Mas o plano não seria posto em prática hoje.
Desligou as luzes e foi observar a cidade da sacada, ilumidada nesse momento pelas luzes noturnas.
"Eu tenho um plano", sorriu e soltou uma baforada do primeiro de vários cigarros de um condenado enquanto tirava uma foto com uma máquina imaginária da cena que via àquela hora da madrugada.
- Click!

Três tigres tristes

Ilhado

- E quando nos vemos?
- Quando nossa amiga for pra Cuba.
- Por quê?
- Porque ai não volto mais.
- Por quê?
- Porque ai quem vai pra uma ilha sou eu.

Last great american whale

Todos temos nossa grande baleia branca para perseguir.
Ahab achou a dele. Será que a minha também vai enlaçar minhas pernas e me puxar pras profundezas de algum oceano?
De certa forma prefiro isso a cavar minha própria cova. Um pouco de surpresa pelo menos.
Mas onde achar uma dessas? Minha mãe diz que viu uma na Liberdade, mas não se pode confiar muito nas mães.

Dor de dentro do interior do fundo

Dói.
Dói de doer dentro da carne. Dói a alma que está por dentro do dentro da carne e dos ossos. Aperta o coração, a barriga, a cabeça...aperta tudo.
Mas é assim. E assim se vai.
Agora, o por quê de tão devagar? Devia ir como um espirro.
- Atchin!
- Saudade!

Memória falha

quarta-feira, agosto 16, 2006

Convivência

Os três de fone, a vida com trilha sonora de cada um.
De repente silêncio, olhares cruzados até alguém constatar: a rede caiu?
- Bom, se estamos conversando é porque sim...
- A rede voltou.
- Tchau! Odeio vocês.

segunda-feira, agosto 14, 2006

Sorriso de criança

Entre um bocado e outro, sorridente, ela mexia no celular da mãe.
- Olha, esse é o Bob, e essa é a Sandy - mexeu no botão - esse é o tio Thiago....olha, essa é legal, faz uma estrela.
O sorriso da mãe, lindo e branco, muito branco. O celular era dela, mas não sabia mexer não.
Entre uma figura e outra, comia um bocadinho, sem tirar os olhos da tela brilhante, pequenina como ela.
Finalmente achou o queria mostrar. "Olha a foto do meu dedo!!!" e caiu na gargalhada. Dentes lindos e brancos, muito brancos, como os da mãe.

Garrafa

Dois cigarros depois, calmo, resolvi voltar pra cama.
Dessa vez um sono leve veio e tomou conta da vontade.
Lá longe, a garrafa atravessava o mar e chegava em alguém.
Um poema, uma palavra e um suspiro. Devidamente selado com um beijo e atirado ao mar dias antes.

sexta-feira, agosto 11, 2006

Momento congelado

Bituca

Dobrou a esquina e foi amor a primeira vista.
Ela tragou e baforou. Ele continuou a seguí-la admirando seus cachos balançando, imaginando todos os outros movimentos.
Quando ela terminou o cigarro, jogou entre um requebrada e outra.
Ele se abaixou, pegou e bituca e foi atrás. Ao alcance do braço, cutucou o ombro dela. Ela se virou.
"Você deixou cair", ele disse sorrindo. Ela sorriu de canto de boca, se virou e continuou o trajeto.
Ele entrou na padaria, parou no balcão e pediu um maço de cigarros "...e uma porção de bom humor por favor."
- Tá em falta.
- Então me veja aquele sonho na vitrine.

quinta-feira, agosto 10, 2006

Digerir o dia

Almoço deveria ter no minimo 8 horas. Tempo o suficiente pra digerir o dia.
Acordaríamos, tomaríamos um café-da-manhã com frutas e fibras, pouco laticínios e café preto com açúcar cristal. Iríamos trabalhar.
Melhor se fosse verão. Ao meio-dia e pouco, sairíamos, escolheríamos um bom restaurante com mesas do lado de fora, guarda-sol aberto e vista pra outros restaurantes e pra rua vazia neste horário.
Cumprimentaríamos uns aos outros cordialmente enquanto nos servíssemos (pois claro, também os garçons estariam almoçando). Primeiro um copo de uma bebidinha pra abrir o apetite, depois salada, prato de entrada, prato principal, um caldinho pra finalizar. Depois sobremesa, café, licor e cigarros, pros que apreciam o sabor.
Durante as horas seguintes prosas em dia, assuntos diversos. Também não teríamos mesas fixas, poderíamos andar por aqui e por ali, mudando as pessoas, humores, condimentos e a sorte de sentar à sombra.
Depois todos retornariam aos seus respectivos trabalhos, com o dia digerido e a sensação de ter feito tudo e mais um pouco.

Valentia

- Opa, mas o cara estava mexendo com minha menina!
Na verdade eram dois. Começou em um semáforo. Ela estava na direção. O machismo fez completou a sentença. Acharam que ele era o amigo.
Foram assim, seguindo, parando do lado e dando olhadelas e risadinhas.
Ela achou engraçado, mas não deu muita bola. Estava acostumada a passar por isso todo dia, o dia todo. O machismo sempre completava a sentença.
Mas ele não gostou.
Primeiro tentou olhar feio. Sem efeito. Isso durante os três primeiros semáforos. Emburrou, cruzou os braços, bufou. Também não adiantou de nada.
No último semáforo mudou o tom. Quando eles olharam não deixou por menos, levantou o óculos de sol até a testa, piscou e mandou um beijinho.
- Funcionou!
Realmente, viraram logo na próxima esquina. Seja porque a tática deu certo, seja porque era o caminho deles.

terça-feira, agosto 08, 2006

Sagrada Família


Entre alguns delírios meus, cá está a Sagrada Família versão fast-food.

Você gosta d'eu?

"Você ainda gosta de mim?"
A resposta foi sim. Depois disso um silêncio interminável.
Um quase encontro, um quase sorriso, um interminável enfim e uma infinidade de poréns e fugas um do outro.
Passou o tempo. A lembrança ficou cinza. A memória, tadinha, lembrava-se das boas coisas. O corpo deixou de sentir falta, o cheiro se desfez (amaciante é uma coisa, deixa até cheiro de sol, diz o fabricante).
Aí foi assim: veio outra e tudo de novo. Mas dessa vez sem a pergunta e o silêncio.
-"Psiu, fala baixo, não acorda o coração". Tá, tá, já estou saindo. Deixa que eu apago a luz, que a noite é bela e dorme linda.

Erê de msn

As pessoas têm seu lugar, me parece, até no msn.
Procuro pelo amigo ou pela amiga já nos lugares certos, na pequena listagem da janelinha que me liga a um mundo tão grande quanto 150x300 pixels.
Lá todos já têm uma lógica para serem reconhecidos. Alguns com o nome primeiro, depois uma citação. Outros criando histórias imaginárias, para puxar assunto talvez. E aqueles que são um mistério e que se perdem nas dezenas da listagem.
Gosto desses últimos, com um jogo de adivinha implícito. Diz respeito ao humor, ao um filme assistido, a uma música marcante ou alguma brincadeira com o sentido das coisas.
Quando estou inspirado também brinco desse esconde-esconde nas palavras. Erê cybernético pra incorporar o orixá-virtual que baixa em cada uma dessas interfaces mundo afora.

O gosto do meu amor

Passei na subida da rua e comprei um saquinho de mexericas.
Tinham o gosto do sorriso com as bochechas que eclipsavam os olhos e do beijo bem humorado dela.

segunda-feira, agosto 07, 2006

Lugar comum com meias singulares

Pequenas porções


A vida vem em pequenas porções individuais, com data de validade e algumas combinações possíveis.
A vida pode ser light, pode ser original, pode ser descafeinada, desnatada, contendo glúten, com fibras ou não recomendada para diabéticos.
A vida pode ser mordiscada ou engolida de uma só vez. Você pode optar pela vida mais amarga, bastando apenas evitar a adição de açúcares e adoçantes.
A vida, in natura, é doce, bastando apenas estar madura. Se estiver verde amarra a boca e dá tontura. Se tomada com leite pode dar em morte.
A vida pode ser tomada de uma só vez, virando o copo e fazendo careta depois. A vida pode ser apreciada pelo bouquet, coloração, gosto florado e safra: normalmente vida importada, italiana ou chilena. Tem aqueles que preferem a vida com gelo ou diluída em tônica.
Prefiro a vida assim, saborosa, no ponto, com uma pitada de pimenta.
Duro quanto a vida fica engasgada.
DIzem pra comer miolo de pão quando é assim, que o espinho logo desce.

Escala de tempo

quinta-feira, agosto 03, 2006

Palavras molinhas


O pai aponta, diz algumas palavras com uma voz fininha e mole e olha pro filho esperando um olhar de compreensão.
O filho olha no fundo dos olhos do pai como fosse dizer algo profundo (o sentido da vida e do universo como conhecemos por exemplo), mas...nada. Balbucia alguns sons, olha pra algum lugar perto de onde o pai apontara e também aponta, esperando que o jogo fosse descobrir onde era o lugar exato que o pai havia deixado aquelas palavras.
Aponta e...nada. Tenta um segundo ponto perto do primeiro. Também não sai nada. Olha pro pai: "Mas afinal como se joga isso, pai?". O que sai são umas quase palavras molinhas, molinhas.
Afinal ele é só uma pessoa nascendo aos pouquinhos, dando seus primeiros passos em direção ao fim, sem conhecer o jogo que o pai esta tentando ensinar.
O pai aponta outro lugar, outra coisa, fala com uma voz fininha e mole e olha de novo pra ele e...nada.

quarta-feira, agosto 02, 2006

Certas coisas

Certas coisas são feitas pra ficar onde estão.
É tirar do lugar pra ver que fica um buraco. Preencha com tempo, um pouquinho de água e muita cinza de cigarro. A argamassa quase não serve de nada, mas fica uma belezura.

Fora da moldura

terça-feira, agosto 01, 2006

Cuidado ao caçar tornados

Vêm do nada, são lindos, são fortes. Te levantam do chão, fazem você girar. Eles te levam alto mesmo. Outras coisas suas também vão junto e mais um turbilhão de outras coisas estão com você lá no alto. Lá de cima tudo é pequeno e no meio de tudo isso uma calmaria: abaixo uma névoa, acima um céu.
De repente você pousa. Ou então cai. A natureza é macia mas a lei da gravidade, implacável.

Carnívoros

Andarilhos da triste figura

Pikiwis

- Pikiwi!
- Bem-te-vi. - eu disse firmemente.
Mas fiquei pensando com meus botões, o que levarai um bem-te-vi a ser um pikiwi. Talvez toda essa globalização tenha mexido com a natureza. Talvez os bem-te-vis tenham se internacionalizado. Afinal pikiwi tem uma fácil leitura em inglês assim com pickles, picnick e outras palavras assim.
Assim os pikiwis quando ganhassem fama internacional, astros de algum programa sobre animais na TV, ganhariam também a boca do povo mundo afora.
Em toda a América do Norte as pessoas pensariam "mas que inferno, um pássaro tão bonito e com um nome tão empolgante nascer na outra América pros lados do México". Na França, além de filosofia e do preço da baguete, comentariam sobre o soberbo animalzinho brasileiro. "Exotique", diriam eles, como falam pra tudo que não é francês, ou é estranho, ou simplesmete exótico mesmo.
No Japão alguma empresa registraria o nome, e os pikiwis virariam nome de produtos diversos, talvez até nome de avião: Pikiwi TransAir 9600, com capacidade para 90 passageiros (e 6 tripulantes).
Seja lá como for, os pikiwis, chamados antigamente de bem-te-vis, seriam assim outro símbolo da terra tupiniquim. Na Inglaterra ou qualquer outro país do mundo seríamos reconhecidos. "Oh, Brazil? Futebol, Pelé, samba...pikiwis!...you know, that birds..."

segunda-feira, julho 31, 2006

Golpe de sorte


Bastaram alguns minutos de chuva.
O papel todo se encharcou, as letras mancharam e meu casaco ficou mais escuro nos ombros.
Mas o cigarro persistiu, lançando mais fumaça que de costume por causa do ar frio. Tive que afogá-lo em uma poça, junto com as lembranças.